
Por Vivaldo Simão
(Músico e acadêmico do curso de letras UESPI)
Após o show da minha recém extinta banda, a Geração Perdida, na primeira noite do IV Festival de Cultura de Oeiras, eu aguardava ansioso pelo show da última banda do dia: uma tal de Validuaté, que segundo me disseram, fazia “algo muito bom, parecido com o ‘trabalho’ do Los Hermanos”.O autor da citação era gente de gosto apurado portanto confesso que esperava muito da banda de nome incompreensível. Qual não foi minha surpresa quando já nos primeiros acordes vejo cair por terra minhas expectativas de ouvir digamos assim: um “Los Hermanos Genérico”. O rótulo simplesmente não se encaixava bem. Muito pelo contrario, quanto mais avançava o show mais tinha eu a certeza de estar diante de uma grande banda acima da minha expectativa e muito além de macaqueados sonoros. Validuaté lembra sim os barbudos cariocas: pelo samba, pela “brasilidade enroqueirizada”, pelo apuro poético das letras. Mas o talento de uma dupla afinada de compositores transcende qualquer excesso de reverência e intenção de soar igual a qualquer coisa. Pude visualizar melhor a questão quando dois meses depois, em um passeio a Teresina, encontrei e conversei José Quaresma, vocal e letras, e de suas mãos trouxe um “souvenir” chamado “Pelos pátios partidos em festa”, primeiro cd da banda.
Essa perola do rock piauiense, na minha humilde opinião, o melhor disco lançado por aqui em 2007, emana rock n’ roll, reggae, funk, MPB e a boa literatura brasileira, nas letras muitíssimo bem construídas de Thiago e Quaresma, cujas influencias nada obvias, como Tom Zé, Jorge Mautner, André Ambujram, Chico Science, entre outros, somam-se às guitarra heavy de Vazim, (fã das escalas de Stevie Vai), à bateria precisa de John Well, o baixo clássico de Wagner e a guitarra-base de Jr Caixão. Seis caras fazendo música com ousadia despudorada.
A faixa de abertura, “Mundo multidão mil”, com sua letra-poema ladeada por um riff arrepiante de guitarra já é um prenuncio do que vem. A seguir, um cavaquinho anuncia o samba “Ela é”, com uma grande letra de Quaresma à uma musa indefectível. O refrão mais delicioso do disco é de uma malandragem irresistível : “Pra que tanta lindeza num ser só/não sei mas assim o mundo fica pior/isso ainda vai dar um dia motivo pra um manifesto contra a má distribuição da beleza/Ela só quer ser/Mas o pior é que ela é”. Um clássico!
“Junto”, a terceira faixa, tem um vago Q das guitarras de Johnny Marr (Ex-Smiths) só que com pitacos de samba, frevo (?) e ska. O arranjo de bateria é saboroso.
“Céu%”, já explicita no nome o nível de experimentação lingüística. Versos como “o céu se biblioteca, se orquestra…” demonstram a ousadia de Thiago E como letrista, brincando com a língua portuguesa.
“Podes crer na duvida” é um reggae-religioso-filosófico de Quaresma. O titulo já dá um indicio do que dizem os versos. O solo de guitarra comprova a excelência de Vazim.
Enfim a semelhança com Los Hermanos, que me foi alardeada, dá as caras de leve: Meu bem nem venha é um neo-brega que lembra algumas coisas dos Hermanitos. Belas frases como “diga logo quantas segundas chances você quer?”, reafirmam a quedinha de José Quaresma por “aquela malandragem típica do bom samba” e odes de amor e desamor à figuras femininas.
“Superbonder” é uma obra-prima!Me lembra Tom Zé: pelo samba, pela letra “neologistica e irreverente”e na linha vocal. Um texto declamado por Thiago completa a traquinagem saborosa que é essa canção.
E tome rock n’ roll: “Amorlâmpago!” Cuja a letra, em certos trechos me lembram coisinhas sutis de Drummond.Traz outro grande riff de guitarra e uma belíssima faixa secreta anexada.
A faixa-título,parceria de Thiago e Quaresma é outra perola do disco: Uma letra belíssima, uma melodia gostosa que, não sei porque, me dá uma nostalgia danada quando ouço (sabe lá de que, essa nostalgia!).Classico!
“Essa moça” traz as mesmas Quaresmiçes já citadas. Exaltação bem escrita à figura feminina. Quaresma é o Chico Buarque do Rock teresinense!!!
Dentro do vasto cardápio sonoro da Validuaté cabe também o Baião: “Bicho-do Mato”. O abismar do nordestino humilde diante da cidade grande.
“Yo no tengo uma banda” é funk suingado (e um pouco de samba) com a letra mais moleca do disco. Cheia de trocadilhos espertíssimos.
Encerrando o disco uma das canções mais belas e arrepiantes que já ouvi: “O Mar e o pano”, a melhor letra do disco (belíssimas metáforas), o melhor arranjo (intenso!), a melhor performance vocal. Uma música que arranca sensações boas de dentro da gente. Dá vontade de voar.
Thiago E encerra o disco declamando um belíssimo trecho de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, acompanhado pela sutileza de uma caixinha de música. O gran finale adequado a um disco perfeito!
Comprem, gravem, roubem, tomem emprestado mas não deixem de ouvir essa jóia!
De fato,uma das melhores (mais eficazes) bandas piauienses da atualidade.Diria até se tratar da “ponta-de-lança” da “avant-garde” da música alternativa piauiense(que nem sei se hoje em dia convém chamar de “alternativa”).Apesar da semelhança com diversas outras propostas musicais piauienses atuais - no sentido de uma postura tendenciosa ao que se convém vulgarmente chamar de “regionalismo” - a Validuaté se destaca na própria forma como trabalha e conduz essa idéia,dando um diferencial peculiar que a releva em relação às outras bandas,tal fato,acredito eu,conseqüência de uma suposta “mistura” poético-sonora mas bem trabalhada e mais criativa.
Israell
March 31st, 2008
Eu concordo em g~enero, número e grau com tudo que vc falou…Validuaté é um dos perdidos que deve ser achado ñ só pelos piauienses mas por todo o Brasil e pelo mundo…pq ñ?????
Brenda Ximenes
April 1st, 2008
sim esta é a banda que ira florecer em ambito nacional com suas construções inovadoras e jeito interessante de brinacar com palavras.
PARABENS VIVALDO…
ótimo trabalho
e vc ja sabe q pode contar cmg pro que der e vier…
( e nos nem nos conhecemos…hehe)
abraço
sucesso
edienari
April 11th, 2008
Vi, cada dia que passa mais me surpreendo com sua capacidade de escrever, vc é otimo!
Bia
April 13th, 2008
ta dito… ta falado!!!
Vivaldo, os caras são massas mesmo… o piauí precisava!!!!
parabéns pela escrita
junior vianna
April 19th, 2008