Rock de Rua

Complexo de Peter PanPor Vivaldo Simão (Músico e acadêmico do curso de Letras UESPI) O rock brasileiro do século XXI está penando com um caso avançado de Complexo de Peter Pan. O processo natural de amadurecimento que supostamente deveria ter sido desencadeado pós-anos 80, embora tenha se insinuado no som de gente como Chico Science, Pato Fú, Skank, Rappa e Los Hermanos, foi interrompido por uma overdose de hormônios e, invertido o processo, desabamos em um abismo de puberdade.É fato que rock é música de jovens para jovens e como tal, sempre trará uma carga de “juvenilidade”, mas ser jovem por acaso é ser oco?. A resposta até parece ser sim quando a gente se depara com “matilhas” de bandas que brotam incessantemente, com suas guitarras cada vez mais distorcidas para encobrir a pobreza lírica, o “besteirol” ou a rebeldia burocratizada que impera nas canções.Parece que as “mocinhas” do rock brasileiro resolveram libertar o conteúdo de seus caderninhos de poemas do ginásio e gritá-los aos quatro ventos com energia e uma tal de “atitude”, sobre a qual os dicionários jamais forneceram maiores esclarecimentos, mas que parece ter alguma ligação intrínseca com roupas e maquiagens de tons escuros, pose de macho (mesmo no caso das meninas) e normas de conduta ditadas pela Rebeldia S/A, uma empresa lucrativa desde 1977.Leia mais textos de Vivaldo Simão em Decodificando

14 comentários para “Complexo de Peter Pan”

  1. Bom. O rock brasileiro nunca foi do Brasil, a não ser o idioma.Se criticamos o suposto rock nacional,é bom lembrarmos antes que ele segue uma tendência internacional altamente influenciável.E isso aconteceu desde sempre.Portanto,se o rock virou “merda” isso não é só aqui,é bom lembrar.Por mais originalidade que nele exista,sempre vem como conseqüência da influência das tendências dos “states” ou do “old world”,e isso,certamente, também serve para o rock pós-80.Acima de tudo,a nova geração de roqueiros nacionais são conseqüência da estrutura nacional e internacional que envolve uma série de outros fatores além da música em si,como os novos conceitos políticos,científicos,filosóficos,tecnológicos,sociais,além de uma nova forma de busca do bem-estar social e realização pessoal.Uma nova forma de ver e viver no mundo.Assim,o mundo artístico não é um “cú fechado” melado pelo passado,e sim um “livro aberto”,sujeito à influência de suas relações contemporâneas,sejam elas quais forem,tendendo à construção na história.Não que o passado seja uma bosta,mas se estamos falando de progresso,por que não dar uma chance ao presente?Os Beatles,por exemplo,no início de sua carreira,mesmo com suas letras tiradas de contos adolescentes pré-púberes,foram a maior banda da história.E eles tanto foram “adolescentezinhos hormonizados” com guitarras distorcidas como homens preocupados com algo mais do que simplesmente relações pessoais.Acho que ainda é cedo pra se falar em amadurecimento,pois algo ainda está sendo construído.Talvez até seja importante o engajamento política nas produções artísticas,ou o resgate da efervescência sentimentalista politicista dos jovens na universidade ou em qualquer outro lugar.Talvez seja importante tratar das questões e problemas sociais mais do que das outras questões - pra ser sincero,não sou muito fã desta idéia.Mas o mundo em que vivemos hoje é muito diferente do de 80,ou 70 ou 60,e por aí vai.Acredito que se trata mais de uma nova busca do prazer,do real prazer pelas coisas,pela vida,do amor -próprio,o que faz com que os sentimentos particulares sejam,de certo modo, sobrepostos ao sentimento “comunal” (o qual é considerado por um bando de intelectuais medíocres e mesmo pensadores de boteco “o único sentimento bom da história”),o que pode parecer ser egoísta e infantil,mas que,na verdade,é apenas um modo de tentar ser feliz numa vida curta.E isso,com certeza,não quer dizer “ser oco”.Os dicionários “nunca” forneceram esclarecimentos sobre essa coisa de atitude,que tanto os “roqueirinhos” do mundo todo insistem em dizer que é bom e se orgulham de dizer que têm…mas que vai ver nem entendem muito bem do que se trata.No fim das contas,nem os roqueiros oitentistas nem os noventistas nem os setentistas conseguiram a fórmula perfeita para esse tal “processo de amadurecimento”,exatamente por sempre terem se apegado a uma espécie de “unilateralidade poética”,que insiste em tratar as questões do mundo de um modo viciadamente parcial,com uma rebeldia na maioria das vezes estéril e inoportuna,seja com sua “roupas e maquiagens em tons escuros”,seja com seus penteados almofadinha e sua visão suposta e politicamente correta,seja fazendo poesia romântica ou realista,seja citando trechos de seus caderninhos de poemas do ginásio.Ou,em outro aspecto,simplesmente por estarem fazendo o que gostam e o que lhes importa. Enfim,pergunto o que seria esse amadurecimento.Amadurecimentodo quê?Amadurecimento como?Seria,por acaso,o incentivo,direto ou indireto, ao machismo,ao consumo desenfreado de drogas,ao sexo selvagem,ao culto à melancolia depressiva?!Tenho certeza que a despreocupação com questões políticas e sociais da atual geração não é pior do que essas outras que acabei de citar.Bem,seja o que for,a verdade é que as “mocinhas” do rock nacional estão aí ganhando muito dinheiro e notoriedade e arrisco em dizer que estão sendo felizes com o que fazem,seja no Faustão,seja no Gugu,seja o que fazem bom ou ruim aos olhos de nós, “intelectuais sabixões do mundo todo”.

    Israell Martins

  2. Cara,escrever quando se está sem tempo é foda!Sempre tenho a sensação de que algo está faltando.Mas…tudo bem…

    Israell Martins

  3. Cara acho que essa questão de amadurecer seja lá o que for, só faz diferencia quando estamos nesse mesmo processo. Tenho certeza de que a vida é pra processarmos as experiências sentidas e vividas. Portanto penso que o rock faz parte da estrutura do desenvolvimento reacional do ser. Pode ser para o bem ou para vc não enxergar aquele palmo diante do nariz.

    cesar caranguejo

  4. O que eu acredito mesmo é que,se existe um processo de amadurecimento (que não sei se pode ser chamado de “natural”),esse processo ainda está do começo pro meio,e ainda incompleto.Assim,não acredito que a nova geração do rock nacional possa ser considerada uma interrupção do processo de amadurecimento,pois a nova geração também faz parte desse processo.O fato de se distanciarem das características do rock de 80 não quer dizer que sejam ruins,ou estejam indo pelo caminho errado.Aliás,nos anos 80 existiam tantas bandas “ruins” como hoje,e umas poucas “boas” produção,assim como hoje.Pra mim,se for comparar,dá empate.Mas, pelo visto, os anos 90 e inícios dos 00 ainda continuarão sendo considerados como a Idade Média do rock nacional - a Idade das Trevas do rock.Só acho que se deveria parar para analisar melhor pra comparar as épocas e suas peculiaridades.

    Israell Martins

  5. Não, o amadurecimento não seria o incentivo,direto ou indireto, ao machismo,ao consumo desenfreado de drogas,ao sexo selvagem,ao culto à melancolia depressiva. A geração 80 buscava identidade . O minimo que eu esperava e que essa identidade fosse encontrada ou pelo menos melhor visualizada nos anos 90 e 00. O movimento emo por exemplo é involução. Esse sim é culto a melancolia, rebeldia sem causa e morbidez. O rock anda meio “menino burro”, melhor quando era um menino nerd e chato.

    vivaldo simão

  6. Agora é o Israel que conheço! :)
    O debate tá ótimo galera, podem continuar. Lembro a todos que o blog está aberto para a publicação de textos, críticas e etc. Caso queiram postar algo no Rock de Rua, enviem para: edmocampos@hotmail.com

    Atenciosamente,

    Edmo.

    admin

  7. uahuahuah! :D

    Israell Martins

  8. “O movimento emo por exemplo é involução. Esse sim é culto a melancolia, rebeldia sem causa e morbidez.”

    Mas “involução” em que sentido? Quer dizer que na década de 80 as expressões do rock nacional não eram caracteristicamente rebeldes sem causa,cultuadoras da melancolia e da morbidez?E o movimento punk e pós-punk,o que eram?Crítica política?!Crítica social?!Crítica religiosa e à moral e aos costumes?!Pra mim,um bando de desocupados que se acham os certos da história,mas só atrasam o desenvolvimento e o progresso da sociedade.Pixar paredes é evolução?Xingar políticos é o melhor caminho para mudar a política?Se isolar da sociedade é ajudá-la a se tornar melhor?Ser um pária é pensar no bem da sociedade? E isso tanto ocorreu ontem como ocorre hoje.Ser diferente,querer ser diferente não lhe dá o direito de agredir a “sociedade de ‘iguais’”.O próprio nome,SOCIEDADE,já sugere boa convivência,independentemente das diferenças existentes entre seus membros. Pra mim,aquela rebeldia era tão sem causa quanto a de hoje: um bando de adolescentes e jovens com frustrações de plástico que se acham os donos da razão,que acham que tudo está errado,seja na política,seja na família,na sociedade,etc.Aliás,os jovens de hoje pelo menos trabalham mais e falam menos: mais trabalho, menos poesia.A poesia do jovem de hoje é trabalhar e ajudar o país e o mundo na medida de suas possibilidades,ainda que existam aqueles que acham que tomar,depredar e arruaçar universidades e órgãos públicos seja o certo quando se trata de “reivindicar direitos”.Aliás,diálogo de jovem é jogar pedra.Enfim,o que seria essa “rebeldia sem causa” de que falas?

    “O rock anda meio ‘menino burro’, melhor quando era um menino nerd e chato.”

    Como assim “burro”?Só porque andam meio desapegados de questões políticas?!Só porque não são tão “poetas” como os de antigamente?!Será que sou mais burro porque prefiro ouvir o rock atual e não curto mais o rock nerd e chato?Estaria eu involuíndo,só porque gosto do rock atual?Mas…involuíndo em que sentido?Burro em que sentido?

    Israell Martins

  9. Não sei quem foi que disse, mas eu concordo: “o rock não pode ser levado a sério”. Acho que é somente uma forma de expressar as idéias ou suas impressões sobre o mundo, sobre o cotidiano e etc. Se o cara é mais engajado ou “culto”, sai uma puta crítica, se ele tá na praia da puberdade sai algo “menos denso”, se ele gosta de samba ou hip hop a coisa tende a um mix. Acho que vai de cada um selecionar suas preferências, mesmo que esta seja antagônica, como amar NXZero e ao mesmo tempo curtir Cartola. Lembrem-se, o rock nacional é mais do que isto que aparece na TV ou nas rádios.

    Edmo.

    admin

  10. Concordo com o que Edmo disse.

    Israell Martins

  11. Bom, eu nem cheguei a citar punks. Alias, meu negocio é com pós-punk. Pelo menos as bandas e cantores aos quais eu tive intenção de me referir não se encaixam na descrição que o irsael fez. Que dia que paralamas do sucesso foi rebelde sem causa, por exemplo?. Não tem xingamento politico nem agressão à sociedade no que eu costumo ouvir. Concordo com tudo que vc disse Israell , mas estamos falando de coisas diferentes.

    vivaldo simão

  12. Ser burro não significa “apolitizado”. Pra que mais inteligente que Los Hermanos, Gram, Chico Science, Skank, Pato Fú??? Eu sequer insinuei uma necessidade de engajamento politico. Quem ouve música burra é burro. “every sensible child will know what i mean” como já dizia Morrissey.Nem preciso explicar os conceitos de cada coisa portanto.

    vivaldo simão

  13. Eu acho que Israell ta se referindo mais a estereotipos
    que a artistas de carne e osso. mas talvez seja meu caso também. No fundo eu só acho que os artistas novos deveriam primar mais por coerencia, concordancia verbal, nominal ou pelo menos escreverem canções de amor menos ridiculas.Tão precisando ouvir Cartola talvez. E o Noel, o Nelson Gonsalves, O Chico Buarque, O Nelson Cavaquinho…rs

    vivaldo simão

  14. Sobre o que edmo disse: concordo que o rock não pode se levar MUITO a sério, de fato.Nem se avacalhar.E o rock realmente não é só isso. O cenário independente tem coisas incriveis. Mas eu já tinha falado no texto que me referia ao Mainstream (Lê se : Charlie Brown, CPM, Detonaltas, NX Zero, Fish não sei que lá, e uma porrada de banda de um sucesso só que têm surgido ano apos ano)

    vivaldo simão

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